O governo federal enviou ao Congresso Nacional o Projeto de Lei Orçamentária de 2026 prevendo que o salário mínimo passará para R$ 1.631 a partir de janeiro. À primeira vista, o reajuste de 7,44% pode soar como um avanço, mas na prática está longe de representar uma real valorização do trabalho e da renda do brasileiro. A fórmula utilizada — inflação medida pelo INPC somada ao crescimento do PIB, mas limitada a um teto de 2,5 pontos percentuais acima da inflação — demonstra que o discurso de recuperação do poder de compra não passa de retórica. O próprio governo admite que, se o INPC até novembro for maior que o previsto, precisará enviar uma nova proposta ao Congresso. Ou seja, mais uma vez, o trabalhador é refém de estimativas e cálculos que não refletem o peso da inflação no dia a dia, especialmente sobre itens básicos como alimentação, gás de cozinha e energia.
É importante lembrar que o salário mínimo serve de referência não apenas para milhões de trabalhadores que vivem com o piso, mas também para aposentadorias, pensões e benefícios sociais. O valor anunciado, entretanto, ainda não acompanha o custo real de vida de uma família brasileira. Basta observar que o Dieese, todos os meses, calcula o salário mínimo necessário para atender às necessidades básicas de moradia, alimentação, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência, e esse valor geralmente ultrapassa a casa dos R$ 6 mil — quatro vezes mais do que o governo propõe para 2026. Essa discrepância mostra como o reajuste, embora em percentual pareça relevante, não corrige a defasagem histórica.
Enquanto isso, o Orçamento para 2026 prevê R$ 3,2 trilhões em despesas primárias, com generosos recursos destinados a programas e emendas parlamentares, mas mantém o discurso de responsabilidade fiscal como justificativa para limitar a correção do mínimo. A meta é reduzir a dívida pública em 0,25% do PIB, ao mesmo tempo em que se mantém uma taxa Selic de 13,11% e um câmbio projetado em R$ 5,76 por dólar. O trabalhador, por sua vez, continua recebendo migalhas diante de um cenário macroeconômico que privilegia ajustes fiscais e metas de superávit em detrimento da dignidade salarial.
O anúncio do salário mínimo de 2026, portanto, escancara uma contradição: enquanto o governo celebra a recomposição com base em índices técnicos, a realidade mostra que o brasileiro seguirá sem condições de cobrir o básico. A política de reajuste, com seus limites artificiais, pode até caber nas planilhas do Ministério da Fazenda, mas não cabe na mesa das famílias que precisam esticar cada real para sobreviver. Mais do que números, o que falta é coragem política para colocar a renda do trabalhador no centro da estratégia de desenvolvimento econômico e social.


