Azul e Gol negam fusão, mas o consumidor continua pagando a conta

Em audiência na Câmara dos Deputados, as companhias aéreas Azul e Gol se apressaram em negar qualquer processo de fusão. Ambas garantiram que a ideia ficou para trás, tendo sido apenas uma especulação em tempos de pandemia, quando o setor enfrentava sua maior crise. Hoje, dizem elas, não há nada em andamento. O discurso soa conveniente, mas não resolve a questão central: o passageiro brasileiro continua refém de um mercado caro, concentrado e com cada vez menos opções.

É verdade que fusões não acontecem da noite para o dia e precisam passar pelo crivo do Cade. Também é verdade que uma eventual união entre duas gigantes reduziria ainda mais a concorrência. No entanto, negar a fusão não significa que o mercado aéreo esteja saudável. Ao contrário, os números mostram aumento de preços, diminuição de rotas e uma avalanche de reclamações. Só entre 2023 e agosto de 2025, foram mais de 240 mil queixas registradas na plataforma consumidor.gov.br contra as companhias aéreas. Esse dado, por si só, já revela a fragilidade do setor.

As empresas insistem em dizer que acordos de compartilhamento de voos e operações conjuntas não reduzem a concorrência, mas especialistas apontam que os preços subiram, em média, 23% após tais arranjos. O consumidor não precisa de estudos técnicos para confirmar: basta tentar comprar uma passagem e constatar na prática a escalada dos valores. O que deveria ser um serviço acessível e estratégico para um país continental como o Brasil virou artigo de luxo, especialmente para famílias e trabalhadores que dependem do transporte aéreo para se deslocar.

O fato é que o setor de aviação brasileiro vive sob permanente instabilidade. Não há sinais de verdadeira abertura de mercado nem de estímulo à concorrência. O que se vê são empresas tentando sobreviver em meio a um modelo de negócios cada vez mais limitado e consumidores pagando caro por um serviço precário. Azul e Gol podem até negar fusão, mas não negam a realidade que salta aos olhos de todos: viajar de avião no Brasil se tornou um privilégio.

Enquanto o debate sobre fusão ganha manchetes e ocupa o tempo do Congresso, a agenda que realmente importa continua esquecida: como garantir passagens a preços justos, serviço de qualidade e mais opções de voo para os brasileiros. Essa é a discussão que precisa ser feita com urgência, antes que o setor aéreo se torne ainda mais excludente e distante da população.

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