Costumo afirmar que política é uma arte que não é para todos, portanto, tem que ter vocação e sabedoria para lidar com ela no seu dia a dia e nas transformações que são impostas. Um exemplo de como não saber lidar com a política e suas nuances é o ex-prefeito Carlos Alves. Pelo seu comportamento estranho, inábil e desagregador. Ele poderia até ter sido um nome de projeção da família Alves, mas não foi nem será. O seu comportamento nocivo e danoso prejudica o próprio. Por isso, caminha para o esquecimento na política. Além de se incompatibilizar com todo mundo, Carlos Alves incorpora mais um item na sua biografia política: dubiedade. Como é que ele vai explicar sua subida em palanques antagônicos? Ciro Gomes, seu candidato a presidente, crítica Lula contundentemente, inclusive com adjetivos poucos republicanos, responsabilizando-o por malfeitos no governo petista e outros adjetivos que desabonam a conduta do ex-mito e ex-líder dos trabalhadores. O projeto para o Senado está cada dia mais complicado para o ex-prefeito e para piorar mais ainda, surge a candidatura do deputado Rafael Motta que pode se tornar competitiva e afastar definitivamente Carlos Alves da disputa para o Senado. O ex-prefeito não agrada o petismo sectário, que certamente votará em Rafael em vez de Carlos Alves para senador.
O vice-governador Antenor Roberto, do PC do B, não tem de que reclamar no episódio que terminou com seu afastamento da disputa na condição de companheiro de chapa da governadora Fátima Bezerra, como seu vice. Antenor foi longe demais, já que pessoalmente não tem voto nem tampouco seu partido – o inexpressivo PC do B. Política se faz com representatividade, boas alianças e votos na urna e isso o PC do B nem Antenor Roberto, um eterno desconhecido no mundo político, tem. Mesmo assim, arvorando – se uma grande liderança política, Antenor Roberto “forçou a barra” para ficar, mas foi convidado a ceder a vaga de vice ao recém aliado, Walter Alves, num acordo patrocinado pelo petista-mor, Luiz da Silva. Antenor tentou permanecer no cargo, mas não foi ouvido nem acatado pela sua ex-companheira, governadora. Pediu a suplência de senador de Carlos Alves, mas também não foi atendido. Resta se conformar e voltar para o seu cargo de procurador do Estado. Também, convenhamos. Com o capital eleitoral que possui Antenor Roberto, a decisão da governadora Fátima Bezerra não podia ser diferente: afastá-lo da disputa para acomodar um aliado que tenha voto para agregar valor eleitoral ao seu projeto de reeleição. No caso, Walter Alves, vice-governador.
Cristiano Monteiro Machado nasceu em Sabará, MG, em 1893, bacharelou-se em direito no Rio de Janeiro em 1918. Foi deputado estadual e federal, constituinte de 1934 e 1946. Prefeito de Belo Horizonte, construiu o mercado central de BH. Em sua homenagem, batizou-se com seu nome importante Avenida da capital mineira. Nomeado embaixador no Vaticano, faleceu em Roma no já distante 1953, com apenas 60 anos de idade.
Em 1950, foi o candidato do PSD à Presidente da República. Apesar de manter formalmente o registro da candidatura até o fim, o partido o abandonou para apoiar a candidatura de Getúlio Vargas, que ganhou a eleição com folgada maioria.
Nasceu nesse episódio o fenômeno político brasileiro da cristianização, caracterizado quando um partido ou sistema político abandona seu próprio candidato para apoiar outro fora de suas hostes, geralmente com mais chance de vitória.
Pesquisei, pesquisei, não encontrei nada igual em outros partes do mundo.
A cristianização, pois, é uma contribuição que a festejadacriatividade brasileira dar à ciência política.
De lá para cá muitos candidatos foram cristianizados na arena política brasileira.
Em 1985, o PDS, em tese majoritário no colégio eleitoral, lançou Paulo Maluf a Presidente. Contudo, a maioria do partido debandou apoiando Tancredo, do PMDB, que venceu a eleição, mas não chegou a assumir. Sarney, o vice, cumprindo a regra constitucional, tirou o mandato.
Em 1989 foi a vez de Aureliano Chaves ser cristianizado. O PFL, seu partido, abandonou sua candidatura para apoiar Fernando Collor, que venceu a eleição, assumiu, decretou o Plano Collor e confiscou a poupança do povão. Para não ser cassado pelo Congresso renunciou ao cargo. Aos 42 anos de idade, já era ex-presidente da República. Hoje, é senador por Alagoas em final de mandato.
Em 2010, a classe política brasileira se superou nas Minas Gerais, criando um plus na cristianização: a cristianização cruzada. O PSDB de Aécio, simplesmente fez corpo mole na campanha de Zé Serra para Presidente. Em contrapartida, o PT mergulhou sua militância, que não trabalhou para o candidato petista Hélio Costa. Ganharam as eleições Dilma e Anastasia, Presidente e Governador. Foi a chapa informal Dilmasia.
Sei não, viu, não sou pitonisa, nem bebi xixi de cigana para advinhar. Sou apenas amansador de burro brabo, mestre do ponto de canjica e de pirão de peixe; mas, olhando o cenário político do RN de 22, sinto no ar o cheiro de fumaça do fenômeno político da cristianização.
O ex-presidente Luiz da Silva, vulgo Lula, está botando “o carro na frente dos bois”, segundo um dito popular, sem saber o seu futuro em razão das “increncas” nas quais se meteu. Consta que ele teria anunciado, segundo divulgação nas mídias sociais, que o atual senador pelo Rio Grande do Norte, Jean Paul Prates, será nomeado presidente da Petrobras no seu governo a partir de 2023. Nada contra o senador petista, comprovadamente um bom técnico do setor de energias renováveis, entretanto, é muito atrevimento de quem certamente poderá não ser nem candidato diante das pendências judiciais que carrega no seu acervo biográfico. De acordo com decisão do ministro Edson Fachin, os processos do ex-presidente foram apenas transferidos de Curitiba para Brasília. O problema tem sido a morosidade deliberada e tendenciosa de setores da justiça, retardando assim os trâmites legais que devem ser apreciados com urgência, isenção e celeridade. É isso que espera a população brasileira. Um elememento importante na cobrança de resultados nesse caso é a mobilização da sociedade exigindo o andamento dos processos seguindo seus curso normal em Brasília. Mas isso estranhamente não tem ocorrido e Luiz da Silva segue “mangando” de todo mundo.
Segundo Padre Vieira, maior expressão do Barroco Brasileiro, para falar ao vento, bastam as palavras; para se falar ao coração são necessárias obras.
Obras no sentido de ações, acrescento.
Na política, a palavra – no mais das vezes – é usada para confundir, simular, dissimular, esconder o pensamento, escamotear a verdade.
Poucos fazem política como ciência, com base em postulados, com respaldo em experiencias vividas. A maioria faz política como arte, intuitivamente, quando não o fazem como negócio.
O jogo do bicho foi inventado em 1892 pelo Barão de Drummond para custear o Zoológico do Rio de Janeiro. Logo virou mania nacional e faz parte do folclore brasileiro. Para se ter ideia do largo espectro de sua capilaridade, registra-se que apenas uma escola de samba do RJ não é financiada pelo Jogo do bicho. Hoje, mesmo considerado contravenção penal, é a instituição mais séria do País, tem mais credibilidade perante a população do que a suprema corte (minúsculo mesmo). Vale o que está escrito, dito e reduzido a termo no papel. Cantou o bicho, paga-se imediatamente o prêmio. Não há notícia de alguém em tempo algum que levou calote.
Para o observador político experiente, mais vale o que não foi dito e o que está dito nas entrelinhas do que o que foi declarado pelo agente político e o que está posto no papel. Se a palavra não tem âncora e não se harmoniza na ação ou na omissão é um risco n’água, não vale nada, foi dita “para inglês ver”.
Na terra de Potiguaçu não se fala em programa de governo, interesse público, desenvolvimento, bem-estar-social. Esqueçam! Estão todos focados na própria sobrevivência. Daí as alianças antagônicas, incompatíveis programaticamente.
Em 1982, ao reconhecer o resultado adverso da campanha para governador, o Dr. Aluízio Alves – lembro como se estivesse vendo agora – declarou em discurso dolorido: “agradeço a todos quantos, movidos por seus legítimos interesses pessoais, participaram da minha campanha. A luta continua.”
O interesse pessoal, pois, não é só do político. É do eleitor, notadamente daquele que vota mal, segundo suas demandas
imediatas, sem preocupação com as demandas da sociedade e do País, o que lembra a passagem bíblica: conhece-se a árvore pelos frutos. O eleitor é a árvore; seu representante, o fruto de sua escolha.
A quatro meses da eleição para governador, se se quer saber em qual candidato determinado político vai votar – quer seja decaído ou com mandato -, não se preocupe com o que ele fala. Observe qual o interesse dele na eleição e o que ele faz ou deixar de fazer. Seu andar comissivo ou omissivo. Vai-se observar que essa ação ou omissão beneficia determinado candidato. Ele é capaz de votar hoje no adversário em prejuízo do correligionário se isso lhe resultar em beneficio mais adiante.
Olhando o cenário, vejo todo mundo em campo, feito o aquecimento, cada um ocupando sua posição. Os que jogam à céu aberto e os que jogam incógnitos. Não tenho a menor dúvida das escalações.
Fico aqui imaginando o ar de surpresa do eleitor quando descobrir quem está ajudando nos bastidores a reeleição da governadora.